«Reduzido pelo positivismo a uma infantil
efabulação, que o poder da Razão superaria, o mito foi sendo
revalorizado a partir do século XIX. De primitiva e precária palavra,
próxima da desordem irracional, de desadequada e desfocada forma de
conhecimento, o mito passou a ser entendido como uma narração exemplar,
uma complexa e fértil construção simbólica portadora de um sentido e de
um ancoramento afectivo no real, uma privilegiada expressão da alma,
reveladora de abismos e dramas, ainda que, porventura, impensada e
inconscientemente vividos. Desta reapreciação resulta clara a ideia de
que o mito não é o obscuro e confuso resíduo que à razão escapa; ao
contrário, na narrativa mítica é perceptível uma lógica, uma
inteligibilidade que arrasta consigo uma cosmovisão, uma determinada
compreensão do homem e da vida. A plasticidade do mito favorece as
múltiplas recriações, novas e diferentes modulações da sensibilidade e
do pensamento que o tempo forja. Compreende-se por isso que as
narrativas míticas tenham sido objecto de reflexão em diversas áreas, da
etnologia à história, da filosofia à literatura, da sociologia à
política, da história das religiões às artes. Ver como os mitos se
afirmam e se recriam, inquirir acerca dos múltiplos laços que,
individualmente e politicamente,
os homens e as sociedades estabelecem com os mitos constituem, na larga
amplitude dos saberes englobados, objectivos primeiros deste colóquio
interdisciplinar.»
TEMAS PREVISTOS
O colóquio organiza-se
em sessões plenárias, com participantes convidados, e sessões paralelas
de comunicações por inscrição. Tópicos preferenciais de intervenção:
reescrevendo mitos
os mitos e os contos de fadas / os contos populares / a cultura popular
«No âmbito da edição da obra Os Anais de Cornélio Tácito traduzidos em
linguagem portuguesa por José Liberato Freire de Carvalho (a ser
publicada em Dezembro), decidiu a Área "Antiguidade Clássica: textos em
contextos" do Centro de Estudos Clássicos da Faculdade de Letras da
Universidade de Lisboa organizar um encontro científico de carácter
internacional, a ter lugar nesta Faculdade nos dias 5 a 7 de Dezembro de
2011, que congregue especialistas nas áreas das literaturas clássica e
portuguesa, tendo em vista uma actualização do estado da arte dos
estudos da recepção dos autores greco-latinos na literatura portuguesa.
Esta iniciativa é inovadora uma vez que têm sido, até hoje, marginais os
estudos comparatistas entre literatura portuguesa e literaturas
antigas. É o ponto de partida para a criação de uma rede de investigação
que apresentará resultados periódicos (dois em dois anos) em eventos
científicos similares a este.
Tendo em vista uma panorâmica geral sobre a literatura portuguesa desde o
período medieval até aos nossos dias, foram convidados investigadores
nacionais e estrangeiros de renome, jovens investigadores nos vários
níveis de formação (Mestrado, Doutoramento e Pós-Doutoramento), de oito
universidades nacionais (Lisboa, Coimbra, Aveiro, Porto, Évora, Minho,
Aberta e Católica) e de duas estrangeiras (Oxford e Bari), que irão
reflectir sobre a recepção de autores antigos nas várias épocas e
géneros da literatura portuguesa. Haverá, ainda assim, especial atenção
para o período contemporâneo, estando programada uma mesa-redonda com
poetas e ficcionistas portugueses em cuja obra se manifesta a influência
clássica. Este colóquio pretende ter como público-alvo a comunidade
académica (promovendo a interacção científica entre investigadores
seniores e jovens graduandos e pós-graduandos) e a sociedade civil.
Em síntese, o colóquio A Literatura Clássica ou os Clássicos na
Literatura: Uma (re)visão da literatura portuguesa das origens à
contemporaneidade constituirá um valioso contributo crítico para o
conhecimento científico ao fornecer uma visão panorâmica da recepção dos
autores clássicos nas diversas épocas da nossa literatura. Este é um
evento em que o Centro de Estudos Clássicos da Universidade de Lisboa se
assume como pioneiro na produção e divulgação de saber nesta área.»
PROGRAMA PROVISÓRIO
5 de Dezembro de 2011
09h30-10h50 - Sessão de Abertura Aires A. Nascimento (Univ. Lisboa) — Ruy Belo Paolo Fedeli (Univ. Bari) — Nuno Júdice
11h10-12h20 João Dionísio (Univ. Lisboa) — A erudição de D. Duarte (1391-1438) Thomas Earle (Univ. Oxford) — As comédias em prosa de António Ferreira: um género clássico que se fez português Isabel Almeida (Univ. Lisboa) — Afectos, doença d'alma? A lição dos clássicos na obra camoniana
14h00-15h10 Mafalda Maria Leal de Oliveira e Silva Frade e João Manuel Nunes Torrão (Univ. Aveiro) — Ovídio e os trovadores do Cancioneiro Geral Arnaldo do Espírito Santo (Univ. Lisboa) — Padre António Vieira André Simões (Univ. Lisboa) — Os clássicos na literatura política da Restauração
15h30-16h40 Cláudia Teixeira (Univ. Évora) — Temas clássicos em Cândido Lusitano Raquel Filipe (Univ. Aveiro) — Presenças clássicas em Manuel Maria Barbosa du Bocage Ana Ferreira (Univ. Porto) — “Cantata a Medeia”, de Bocage
17h00-18h10 Vanda Anastácio (Univ. Lisboa) — Marquesa d’Alorna Nuno Simões Rodrigues (Univ. Lisboa) — A «Lucrécia» de Garrett Virgínia Soares (Univ. Minho) — O mito de Ceres em Feliciano e em Júlio de Castilho: das fontes clássicas à tradução
18h20 - Lançamento de Os Anais de Cornélio Tácito traduzidos em linguagem portuguesa por José Liberato Freire de Carvalho
6 de Dezembro de 2011
09h30-11h00 Ricardo Nobre (Univ. Aberta) — A lira clássica do Trovador romântico Maria Isabel Rocheta (Univ. Lisboa) — O trágico em Amor de Perdição, de Camilo Castelo Branco J. Filipe Ressurreição (Univ. Lisboa) — A construção d(um)a História: em torno da estética clássica em O Regicida, A Filha do Regicida e A Caveira da Mártir, de Camilo Castelo Branco Serafina Martins (Univ. Lisboa) — Ulisses, um herói no seu tempo (sobre o conto “A perfeição”, de Eça de Queirós)
11h10-12h10 Paula Morão (Univ. Lisboa) — Poetas portugueses de oitocentos na senda dos clássicos Fátima Freitas Morna (Univ. Lisboa) — Geração de Orpheu Pedro Braga Falcão (Univ. Católica Lisboa) — Horácio revisitado: o silêncio e a música de Ricardo Reis
14h00-15h10 Ana Sofia Albuquerque e Aguilar (Univ. Lisboa) — «Deixou aqui a Grécia a assinatura» (ou a presença clássica na obra de Miguel Torga) Manuel Ramos (Univ. Porto) — Miguel Torga Maria do Céu Fialho (Univ. Coimbra) — O clássico nos últimos romances de Vergílio Ferreira
15h30-16h40 António Manuel Ferreira (Univ. Aveiro) — Ao contrário de Ulisses: Rui Knopfli Ana Filipa Silva (Univ. Lisboa) — Divindades recriadas: ecos da cultura grega na poesia de Sophia de Mello Breyner Andresen Ana Alexandra Alves de Sousa (Univ. Lisboa) — Mulheres gregas na poesia de Sophia
17h00-18h30 - Mesa-Redonda com Hélia Correia Lídia Jorge Joaquim Manuel Magalhães José Mário Silva Manuel Alegre Mário de Carvalho Nuno Júdice Vasco Graça Moura
7 de Dezembro de 2011
09h30-10h20 José Ribeiro Ferreira (Univ. Coimbra) — Cassandra e Electra na poesia contemporânea: alguns exemplos Maria Cristina de Castro-Maia de Sousa Pimentel (Univ. Lisboa) — José Miguel Silva
10h30-11h45 Jorge Deserto (Univ. Porto) — A cortina das palavras em Anfitrião, de Augusto Abelaira Teresa Carvalho (Univ. Coimbra) — O mundo clássico na poesia de Vasco Graça Moura: contrafacção e (re)criação Tatiana Faia (Univ. Lisboa) — Um lume branco à esquerda: algumas notas sobre a Grécia na poesia de João Miguel Fernandes Jorge
11h45-12h45 — Encerramento Maria Helena da Rocha Pereira (Univ. Coimbra)
«A biblioteca online CLASSICA DIGITALIA - VNIVERSITATIS CONIMBRIGENSIS visa criar um grande espaço de difusão da cultura científica para a área dos Estudos Clássicos. A biblioteca estará receptiva a colaborações de toda a comunidade académica, dando especial atenção à criação de sinergias dentro do espaço lusófono. A política de publicações é definida pelo conselho editorial e a qualidade dos trabalhos é controlada pela arbitragem de uma equipa internacional de especialistas. Todos os títulos editados pela CLASSICA DIGITALIA são também publicados em formato impresso.»
«Depuis plus de trente ans désormais, les travaux universitaires relevant
du domaine des gender studies se multiplient dans le monde. Depuis peu,
ils acquièrent une reconnaissance institutionnelle à l’intérieur de
l’université française, essentiellement dans le champ de la sociologie,
de l’ethnologie et de l’histoire contemporaine. Ce courant scientifique
interroge les constructions des identités dans les sociétés : il
s’intéresse aux processus de catégorisation liés aux identités de sexe
et aux pratiques sexuelles, et il met en évidence l’intrication complexe
des questions sexuelles et des questions politiques.
Mais qu’en est-il de son usage pour l’étude des mondes anciens ?
Qu’avons-nous à gagner à mettre en oeuvre cette façon d’interroger les
documents qui nous sont parvenus ? Dans cette démarche, il s’agit pour
l’antiquisant de comprendre où, quand et comment les identités de sexe
hommes/femmes faisaient (ou ne faisaient pas) sens pour les Anciens, où,
quand et comment ce que nous considérons comme des pratiques sexuelles
entraient en jeu dans l’évaluation morale de tels ou tels comportements.
Tel un anthropologue (mais sans terrain actuel), l’antiquisant tente de
faire émerger les catégories indigènes : par conséquent,
l’historicisation des catégories sexuelles rejoint la nécessaire
historicisation des genres littéraires antiques que promeut la
pragmatique des textes.
Muni de ces outils conceptuels transdisciplinaires, l’antiquisant peut
alors appréhender les sociétés antiques de façon plus large, et aborder
différemment des sociétés où les binarismes actuels (homme/femme,
privé/public, homosexuel/hétérosexuel) ne sont pas signifiants. Ces
approches mettent au jour des constructions sociales et politiques que
l’histoire et l’analyse littéraire traditionnelles des documents
antiques n’ont pu révéler, et montrent avec force qu’il n’est pas
possible de séparer les questions sexuelles des questions politiques,
sociales, littéraires, religieuses et philosophiques.
L’objectif de ces cinq conférences et des ateliers afférents est de
mettre en évidence de façon concrète tout l’intérêt que revêt, pour
l’antiquisant, cette forme d’investigation scientifique.
Le but de la séance introductive proposée par S. Boehringer est de
présenter à un public de spécialistes de l’antiquité l’outil « genre »,
son apparition, son histoire et le contexte de son développement, ainsi
que les premières avancées qu’ont permises les travaux issus des gender
studies. Il s’agit également de mettre en évidence l’apport que peut
représenter cette méthode dans l’approche des sociétés grecques et
romaines, et de montrer dans quelle mesure l’historicisation des
catégories sexuelles permet au chercheur non seulement d’éviter de
nombreux anachronismes mais également de découvrir, dans les documents
qui lui sont parvenus, des aspects des sociétés grecques et romaines
jusqu’à présent mal connus.
Il ne s’agit donc pas d’appliquer systématiquement une méthode, mais de
réfléchir à la meilleure façon de définir notre questionnement, en
fonction de la nature des discours que nous étudions : en ce sens, le
genre dans l’antiquité ne peut se faire sans l’apport des théories
littéraires sur les discours antiques.»
PROGRAMME
1. Le genre : état des lieux et perspectives dans le champ des études anciennes Sandra Boehringer (Université de Strasbourg)
2. Construction des genres, rites et fictions : de l’épinicie au roman grec Michel Briand (Université de Poitiers)
3. Donner le sein à Rome : la fausse évidence d’un geste sexué Marine Bretin-Chabrol (Université de Lyon III)
4. Chasser, tuer, violer ? La construction du genre mythographique Charles Delattre (Université de Paris X)
5. Pour le meilleur et pour le pire : érôs ou le plaisir sans partage Sandra Boehringer (Université de Strasbourg)
En complément de cette série de conférences, Gaëlle Deschodt (Université de Paris I) proposera un atelier consacré à l’analyse de la céramique grecque sous l’angle des questions d’identité de sexe : « Genre et iconographie ».
Comunicações livres
Langue poétique et pragmatique du “gender” dans les formes du mélos: beauté, musique et immortalité chez Sappho Claude Calame (EHESS)
Les hommes et les femmes dans le Satiricon Florence Dupont (Université de Paris 7 Denis-Diderot)
Troubles dans le genre grammatical : le De lingua Latina de Varron Peggy Lecaudé (Centre Alfred Ernout de Linguistique latine)
Ateliers
Geste d’homme, geste de femmes ? À propos de deux lécythes funéraires du musée national d’Athènes Gaëlle Deschodt (Paris I)
Femmes et hommes pris au ventre dans la Collection hippocratique Florence Bourbon (IUFM & Université Paris-Sorbonne)
Reconnaissance et lecture intéressée Sophie Rabau (Université Paris 3)
Problèmes d’accord concernant les substantifs animés de genre neutre en grec ancien Renaud Viard (CPGE Lycée Claude Monet)
1. Objectivo e delimitação do trabalho 2. Considerações sobre vários ângulos de abordagem do tema «mulher» 2.1. Obras de carácter laudatório 2.2. Obras de carácter didáctico e crítico 2.3. Obras sobre os direitos e a acção das mulheres 3. Conclusão
I. Obras por autores
II. Obras por temas
1. Obras de carácter geral com referência significativa à mulher / condição feminina / feminismo 2. Mulher e sociedade: igualdade / diferença / género 3. História da mulher / mulheres na História 4. Emancipação / feminismo e antifeminismo 5. Educação feminina / formação e afirmação pessoal das mulheres 6. Trabalho feminino / formação profissional / participação na vida económica 7. Estatuto legal da mulher 8. Mulher no casamento / família e vida doméstica 9. Mulher e cidadania / poder / política / democracia 10. Amor e sexualidade / relação mulher-homem 11. Maternidade / saúde / protecção social 12. Violência contra a mulher / prostituição feminina 13. Mulher e religião / vida monástica 14. Mulher e letras, artes, ciências e cultura popular 15. Organizações de mulheres: estatutos / programas / acções 16. Folhetos volantes sobre a mulher 17. Vária
«A Base de Dados em Estudos Sobre as Mulheres financiada pela Fundação para a Ciência e Tecnologia (PIHM/CPO/63639/2005, no âmbito do Centro de Estudos das Migrações e das Relações Interculturais (CEMRI) da Universidade Aberta, consiste na compilação da informação bibliográfica na área das Ciências Sociais e Humanas relevante para a investigação em Estudos sobre as Mulheres, de género, e feministas abarcando os títulos publicados em Portugal, num período compreendido entre o ano de 1998 até 2005, na sequência da obra de Maria Regina Tavares da Silva, intitulada: A Mulher, Bibliografia Portuguesa Anotada, 1518-1998, de 1999.
Para além dos livros publicados esta Base de Dados inclui ainda as monografias (dissertações de licenciatura e de mestrado e teses de doutoramento) inventariadas nas Universidades Portuguesas.
A Base de Dados pode ser consultada a partir das seguintes ligações:
Refira-se ainda o carácter aberto e a necessidade de actualização permanente deste instrumento de consulta, que consideramos ser um contributo importante não só para a dinamização e consolidação desta área de estudos em Portugal, como pelo interesse que a mesma suscita em termos editoriais e académicos.»
«O projecto Disability Rights Promotion International (DRPI) assenta em parcerias para promover a capacidade de monitorização dos direitos humanos das pessoas com deficiência à escala global. Utilizando uma abordagem de direitos humanos à deficiência, o DRPI procura estabelecer um sistema de monitorização sustentável e holístico para enfrentar a discriminação pela deficiência em todo o mundo.
Papel central das Pessoas com Deficiência A metodologia DRPI prevê o envolvimento activo de pessoas com deficiência e das suas organizações em todo o processo de monitorização dos direitos humanos que lhes assistem, assumindo assim um papel central na gestão e implementação destes projectos.
Abordagem baseada nos Direitos Humanos Os projectos DRPI baseiam-se numa abordagem de direitos humanos perante a deficiência que reconhece que as pessoas com deficiência têm os mesmos direitos que todas as outras pessoas e destaca de que modo a discriminação pela deficiência acentua a vulnerabilidade ao abuso, à pobreza e a outras condições sociais de injustiça.
Sustentabilidade Através de actividades de capacitação e da divulgação eficaz de resultados, o DRPI cria redes sustentáveis de indivíduos e organizações que continuarão no futuro a chamar a atenção para a questão dos direitos das pessoas com deficiência nas suas comunidades.
Colaborações O DRPI tem o seu Centro de Coordenação Internacional e o Centro Regional da América do Norte sedeados na Universidade de York, no Canadá. Tem também Centros Regionais em África (Ruanda), Ásia e Pacífico (Banguecoque), Europa (Sérvia) e América Latina (Argentina). O DRPI trabalha em parceria com organizações de pessoas com deficiência, instituições de direitos humanos, universidades, agências governamentais e com as Nações Unidas.»
MONITORIZAÇÃO HOLÍSTICA DOS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA
«A monitorização dos direitos das pessoas com deficiência é importante para se promover a consciência da discriminação pela deficiência e do seu impacto negativo, conduzindo assim a uma acção positiva de combate a esta forma de discriminação. O DRPI desenvolveu uma abordagem holística à monitorização dos direitos das pessoas com deficiência, que assenta na recolha de informação em três áreas-chave:
1. Experiências individuais de pessoas com deficiência; 2. Medidas sistémicas desenvolvidas para proteger e promover os direitos das pessoas com deficiência (leis, políticas, programas); 3. Atitudes sociais medidas pelas representações e coberturas mediáticas da deficiência.
A análise conjunta destas três áreas oferece um retrato bastante completo da situação da discriminação pela deficiência. Ao desenvolver métodos e ferramentas para a recolha de informação em cada uma das três áreas, o DRPI promove uma visão holística dos direitos humanos das pessoas com deficiência e contribui para que as medidas tomadas por organizações de pessoas com deficiência, governos e outros actores para combater a discriminação com base na deficiência sejam fundamentadas em dados concretos.»
«O presente estudo teve como objectivo, proposto pelo INR, “avaliar os impactos financeiros e sociais da existência de pessoas com deficiências ou incapacidades nos agregados domésticos, com vista ao planeamento e definição de medidas que promovam a igualdade de oportunidades, capacitação e autonomia das pessoas com deficiências ou incapacidades”. A sua concretização foi realizada desenvolvendo três linhas analíticas: 1) caracterização das condições socioeconómicas da população com deficiências ou incapacidades; 2) caracterização das políticas públicas de apoio a esta população; 3) cálculo dos custos acrescidos da deficiência para os agregados domésticos.
Para dar respostas às duas primeiras linhas, desenvolvemos uma análise de carácter secundário de dados estatísticos e documentais (analisámos 4º Inquérito Nacional de Saúde (INS), o Painel Europeu dos Agregados Familiares (PEAF) e do Inquérito às Condições de Vida e Rendimento (ICOR), legislação e planos de acção). Para responder à terceira, realizámos, ainda, um trabalho empírico, que usou a técnica da entrevista, como fonte privilegiada (foram entrevistadas pessoas com deficiência e as suas famílias, policy-makers, responsáveis pela gestão das políticas, profissionais e especialistas na área e dirigentes e técnicos de associações e de instituições prestadoras de serviços).
As diferentes fontes permitiram quantificar as várias dimensões do quadro estrutural de desigualdade enfrentado pelas pessoas com deficiência na nossa sociedade: menores níveis de educação, menor taxa de empregabilidade, menores rendimentos do trabalho, maiores despesas com a saúde. Verifica-se, ainda, que as transferências sociais não suprem as condições de especial vulnerabilidade das pessoas com deficiência, pelo que, mesmo quando o peso compensatório destas é ponderado, se mantém um quadro de menor rendimento global das pessoas com deficiência e ou incapacidade e dos agregados familiares a que estas pertencem. A perspectiva assim consolidada foi articulada com uma avaliação das políticas públicas neste domínio.
Sendo um dos objectivos centrais deste Estudo a quantificação da despesa acrescida das deficiências e ou incapacidades, a resposta a este desafio passou por uma série de opções metodológicas. A primeira opção consistiu em contrariar as soluções encontradas por outros estudos, realizados noutros países, e construir categorias analíticas que não se limitassem a transpor categorias biomédicas de definição da deficiência. Partindo do pressuposto de que as necessidades e custos implicados na deficiência decorrem de um complexo nexo entre circunstâncias pessoais, valores culturais e formas de organização social, definimos 10 perfis analíticos para o cálculo dos custos, tendo a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde (CIF) como base conceptual e as entrevistas como base empírica. Assim, os perfis que elencámos são o resultado de um trabalho de análise que, pretendendo dar conta da articulação entre Funcionalidade e Incapacidade e Actividades e Participação, resulta da identificação de necessidades, regularidades e consistências nos padrões de custos dentro de cada perfil. Tomando como referencial para o cálculo dos custos, a identificação das condições necessárias à optimização da autonomia, participação e qualidade de vida das pessoas com deficiência, os resultados obtidos para cada perfil sistematizam os custos acrescidos que, anualmente, recaem nos orçamentos familiares. Embora estes custos variem consoante o perfil considerado, os dados mostram a relevância dos custos adicionais que as pessoas com deficiência enfrentam em qualquer um dos perfis.
Os resultados obtidos oferecem um diagnóstico quantitativo e qualitativo das condições de desigualdade a que estão sujeitas as pessoas com deficiência e/ou incapacidades, constituindo uma base importante para (re)definição das políticas públicas.»
ÍNDICE
Introdução
1. A problemática da deficiência
1.1. A invisibilidade estrutural 1.2. Os modelos de abordagem 1.2.1. O modelo médico 1.2.2. O modelo social 1.2.3. A CIF e o modelo biopsicossocial
2. Uma caracterização das deficiências e incapacidades em Portugal
2.1. A informação estatística: fontes e dados 2.2. Uma análise de três fontes estatísticas 2.2.1. O Inquérito Nacional de Saúde 2.2.2. O Painel Europeu dos Agregados Familiares 2.2.3. O Inquérito às Condições de Vida e Rendimento 2.3. Uma síntese dos resultados
3. As políticas públicas
3.1. O quadro internacional 3.2. O quadro nacional 3.3. Uma análise da despesa 3.4. Uma síntese 3.5. A experiência das políticas
4. Os custos sociais e financeiros da deficiência
4.1. Os perfis 4.2. O cálculo dos custos 4.3. Os custos por perfil 4.3.1. Perfil 4.3.2. Perfil 2 4.3.3. Perfil 3 4.3.4. Perfil 4 4.3.5. Perfil 5 4.3.6. Perfil 6 4.3.7. Perfil 7 4.3.8. Perfil 8 4.3.9. Perfil 9 4.3.9. Perfil 10